segunda-feira, 29 de março de 2010

A Hoasca na recuperação da dignidade humana

Apresentação na mesa redonda “Os usos da ayahuasca: aspectos religiosos, antropológicos e científicos”. Sexto Movimento pela Vida, Centro de Ensino Médio, Palmas.

Bom dia. Minha contribuição nessa mesa será falar sobre o povo da rua. como usamos a Hoasca para a recuperação de moradores de rua. Mas antes de começar propriamente, quero externar minha gratidão pelo convite de participar dessa mesa. Hoje pela manhã, quando a gente estava saindo do hotel e vindo para cá, aconteceu uma coisa engraçada, simpática. Nós entramos na van e todos que estavam lá eram da mesa. Aí, a Bia com esse jeito menina dela começou a exclamar: “Oba! Agora é a nossa festa! Que legal! Chegou nossa vez! Vamos reunir o povo ayahuasqueiro!”. E estou me sentindo meio assim. [risadas]. Bom, não é? Fiquei sabendo que iria encontrar com o Helinho [Hélio Gonçalves], que faz parte da minha história também. Quando comecei lá pelos idos de 82, vim a conhecer um Mestre da União do Vegetal que ainda hoje reverencio, com muito respeito, o Bartolomeu e na época o Hélio também vivia aqui com o Mestre Bartolomeu. Fizemos uma viagem juntos para a floresta, foi memorável. Está gravado cena por cena no meu coração.

Passei uma época, anos importantes da minha vida, na União do Vegetal. Cheguei a ser Mestre lá e é um lugar por onde nutro uma grande simpatia.

A associação que faço parte se chama ABLUSA, Associação Beneficente Luz de Salomão. Continuo seguindo os mesmos mestres, Salomão, Mestre Gabriel, mas fiquei um tempo sem beber o chá. Estava mais envolvido com essa luta da espiritualidade e da liberdade social, que foram minhas bandeiras durante a vida inteira e ainda são, mas comecei a sentir falta realmente de me engajar novamente em um movimento religioso e espiritual, vamos dizer assim. Eu tinha um grupo que trabalhava na rua que começou no consultório. Como fui apresentado aqui, sou psiquiatra. Numa certa época, começaram a aparecer muitas pessoas com depressão no meu consultório. Então nós criamos um projeto que tinha uma brincadeira com as palavras, trocar o “doer” pelo “doar”: Pegávamos aquelas pessoas deprimidas e íamos para o centro de São Paulo levar arte para moradores de rua. Levar arte de maneira geral: Desenho, canto, teatro… Tudo começou assim, com um grupo de pacientes. A coisa foi andando, evoluindo, crescendo, a brincadeira foi tomando gosto. Naquela época, tinha parado de beber o vegetal na União do Vegetal e comecei a beber de novo por minha conta, sozinho. Eu e minha companheira. Tinha ficado dois anos sem beber o chá, e aí fui lembrando de novo…. Tenho vinte e três anos de hoasqueiro, sendo dois desses sem beber, logo que saí da União do Vegetal. Quando bebi de volta falei: “Nossa, como é que fiquei sem beber esse chá?!”. Os hoasqueiros aqui sabem do que estou falando. Quando agente fica um tempo sem beber e volta, fala: “Como é que posso viver sem isso? Que lucidez! Quanta ficha! Como sou burro sem isso!”. Uma vez um amigo psiquiatra me perguntou: “Isso é coisa de maluco, não? Não preciso de chá nenhum para falar com Deus!”, e então falei para ele: “Eu também não, falo com Deus toda hora, agora para Ele falar comigo, ou pelo menos para entender o que Ele fala preciso beber o chá”. [risadas] Falo com Ele toda hora, aliás, falo cada besteira… [Aplausos].

Bom, o fato é que bebi de novo, foi um presente de um amigo, um irmão daimista que me deu uma garrafa de daime. Bebi com a minha mulher e lembrei quem era e o que tinha que fazer – estava “dormindo”! E como já estava com esse trabalho na rua… A gente sabe, quando a gente bebe e recebe isso dentro da Força sabemos – ainda que fique meio esquisito dizer: “Recebi uma mensagem para montar esse trabalho”, mas recebi mesmo! [risadas] É verdade. Não tem esse caráter assim solene porque é simples, porque quando Deus fala com a gente é muito simples mesmo. Fala assim na boa mesmo. E aí nós começamos a nos juntar com um grupo de pioneiros que chamo os “carregadores de piano” , aqueles “bandeirantes”, sabe? Tem gente de tudo quanto é tipo, gosto daquele tipo de gente que desbrava caminhos, que mete a cabeça, é um tipo de tribo da qual faço parte. Junto com mais meia dúzia de “malucos” desse jeito nós começamos a trazer a espiritualidade através hoasca para moradores de rua.

A idéia de uma pessoa que tem um padrão vibratório de obscuridade, de sujeira, de miséria na acepção mais ampla da palavra, porque lhe falta tudo, inclusive a dignidade, receber um instrumento como a Hoasca, que é de um alto grau vibratório, é algo muito interessante. Já tinha sido durante anos psiquiatra de usuários de drogas, então achava que estava pronto. Quando cheguei na rua, pude ver a beleza do trabalho que tinha para ser feito ali. Trazer pessoas que vivem na mais alta ou na mais baixa escuridão para a luz, para a consciência, para o resgate da dignidade da vida. Nesses anos todos de militância na pesquisa do ser humano, não tinha achado nada mais eficiente do que esse veículo, essa ferramenta, sobre a qual estamos conversando hoje aqui, a Hoasca. Não tinha achado nada mais eficiente para colocar uma pessoa em contato com ele mesmo e ao mesmo tempo em contato com o sagrado do que esse chá. Mas não é só o chá. Vocês ouviram um pouco aqui, vão ouvir mais, que o contexto ritualístico é muito importante. Porque não é só beber chá, o chá é um veículo. O veículo sem um piloto não leva a lugar nenhum; pelo contrário, posso dar até uma Ferrari na mão de uma pessoa, mas se ela não sabe dirigir não sai da primeira marcha e ainda diz: “Que amarrado esse carrinho vermelho que você me deu, né?!”, e a pessoa está com uma Ferrari na mão. Percebi que não adiantava simplesmente dar o chá para estas pessoas. Assim como tinha aprendido na União do Vegetal, isso tinha que ser feito dentro de um contexto ritualístico, sério, e bem fundamentado. E me fiz valer daquilo que tinha aprendido em mais de doze anos dentro do ritual União do Vegetal.

Como nós acabamos lidando com uma população muito específica, o morador de rua, de repente comecei a receber certas chamadas, ícaros, hinos – cada tradição tem um nome, da tradição de onde venho são as ‘chamadas’, para situações específicas. Muito bonitas e muito fortes. Uma experiência muito interessante que até então não tinha tido, pois até então tinha estudado as chamadas que o Mestre Gabriel e os Mestres antigos que tinham convivido com o Mestre tinham recebido. De repente, passei a receber diretamente essas chamadas, numa experiência fantástica! Porque não passa pelo ego, pela invencionice, pela composição. Passa por uma coisa que vem de dentro. E para um psiquiatra isso é muito parecido com um delírio. “Meu Deus do Céu, que coisa esquisita, da onde vem vindo essa música? Da onde vem vindo essa sabedoria?”. E, apesar de estar vindo pela sua boca, a impressão que dá é que não é tua. Ou que é tua, mas não estava acessível até um minuto atrás. E você percebe que aquela ferramenta veio exclusivamente para ser usada naquele momento ou naquela oportunidade, para aquela finalidade – o que a diferencia de uma coisa do ego, da vontade. Aquilo do ego e da vontade é porque eu quero. A coisa de receber dentro da força é pela necessidade, porque precisa. E viver essa experiência, que até então tinha sido teórica para mim. Tudo, tudo que fiz até agora, que foi feito até agora já valeu. Daqui para frente é só lucro.

Nós estamos com um trabalho ainda no início. Nesse momento, estamos montando uma clínica de recuperação de dependentes químicos da rua, junto ao nosso templo em Mogi das Cruzes, no alto da serra, no meio de uma mata linda, maravilhosa. Esse trabalho passou a ser um filho. Passou a preencher minha vida de uma maneira muito especial. Hoje sobrevivo como consultor de empresas, com viagens pelo Brasil inteiro, me sustento. Com isso, pude voltar a fazer medicina por amor. A cura pelo amor, sem estar envolvido com a energia monetária. E isto é sem dúvida um privilégio, você poder trabalhar com a cura, com a espiritualidade, e com o amor sem energia monetária, e esse trabalho me deu essa oportunidade. Pude voltar a cuidar de pacientes psiquiátricos, mas sobre uma outra vertente, com uma outra medicina, e com uma outra moeda permeando essa troca. Esse trabalho tomou uma dimensão especial na minha vida, é realmente hoje um grande filho, que me ocupa um bocado de tempo.

Temos esse sonho de fazer 360 graus nessa abordagem com o morador de rua: acolhê-lo, recebê-lo, curá-lo, treiná-lo, inseri-lo, e despedi-lo. Nós não pretendemos ser mais uma organização assistencialista, mas sim uma escola de transformação humana. E, junto ao povo da rua, fazer uma escola de evolução de pessoas como nós que estamos aqui. Houve uma época que a gente levava sopa nas ruas de São Paulo, e uma vez encontrei um colega meu trotskquista do tempo de militância política que me falou: “-O que é isso companheiro? -Você era um grande militante e agora virou assistencialista?”. Falei: “Claro que não! Essa sopa é só para aglutinar as pessoas, para elas estarem aqui”. E trabalho com o morador de rua é para aglutinar pessoas como nós. Para trabalhar o próprio desenvolvimento. E a primeira coisa que falamos no nosso trabalho é que não pode ter aquele olhar de superioridade, de cima para baixo, para com o morador de rua. É o olhar do mesmo tamanho. E agradecer porque estamos tendo uma oportunidade de nos conhecer, através do trabalho com eles.

Teve um determinado momento que nós passamos um tanto de apuros, e tive vontade de desistir desse trabalho. Questionei: “O quê que eu estou fazendo aqui?”, “Porque que não volto para a União do Vegetal, onde só tenho amigos, a porta está aberta e tal? Porque que não volto para lá e vou beber o Vegetal com meus irmãos onde comecei e fico aqui perdendo tempo com essa cambada de cascudos?”. Já tivemos sessões em que o irmão ficou pelado, gritando e rolando pelo chão. Cada sessão que se meus irmãos da União do Vegetal soubessem diriam: “Esse cara é doido. Como é que ele faz um negócio desse?”.

Passei por situações muito delicadas, fui agredido. A pessoa alucinada, não pelo chá que bebeu, mas pela doença mental que tem dentro dela de anos e anos na rua, querer reagir àquela luz de uma maneira agressiva e querer me agredir no meio de uma sessão. E aí, uma chamada aparece e derruba a pessoa, ela fica sentada no chão, parada e estatelada, e a partir daquela chamada, que eu mesmo nunca tinha ouvido na vida, a pessoa diz assim: “Daqui pra frente eu só quero beber da fonte. Chega de beber água suja”. E vira um ex-morador de rua. Coisas terríveis aconteceram, mas coisas maravilhosas também. As terríveis existem e viram piadas depois que passam – depois que acontecem são até engraçadas. Mas, na época, na hora, no momento, é só mesmo ter muita confiança no Mestre e dizer assim: “Se estou aqui, fazendo isso, é porque tu me colocaste aqui, então, TVN”. “TVN” é uma técnica de terapia muito especial, se vocês não conhecem precisam conhcer: TVN é: ‘Te Vira Negão!’ [risadas]…. Dá o teu jeito… Muitas e muitas vezes disse isso para o Mestre: “Mestre, dá o teu jeito! Não estou podendo, mas algo tem que ser feito!”. E por incrível que pareça, uma chamada certa, na tonalidade certa, do jeito certo, coloca ordem no campinho. Mas é preciso ter confiança e coragem.

Uma vez, num trabalho de cura do Daime, ouvi um hino que achei bem legal, que dizia assim: “E se sair correndo é pior para você”. Achei aquilo fantástico! Aliás, os hinos do Daime têm cada pérola. É assim, não tem para onde correr. Chama, pede, deixa o pau torar, e sai do outro lado voando porque é o seguinte: nós podemos escapar de qualquer situação, podemos escapar do Mestre, do padrinho, podemos escapar do terapeuta, do chefe, do pai, mas não podemos escapar de nós mesmos. Aí não dá. Então o chá é também um grande veículo de encontro consigo mesmo. E é dentro de uma experiência de êxtase como essa que uma pessoa que vive na rua pode encontrar com Deus do lado de dentro das suas costelas. E pode então resgatar sua dignidade, reconhecer-se como um filho do Sol, um filho da Luz, e re-assumir a sua digna missão de ser humano.

Grato.
(Aplausos)

Apresentação transcrita pelo biólogo Rafael Guimarães dos Santos, estudioso das religiões ayahuasqueiras (banisteria@pop.com.br), editada por Maria Clara Rebel pesquisadora do tema psicoativos/religiões e mestra em Psicologia Social pela UERJ (clararebel@yahoo.com.br) e depois submetida à apreciação do autor.

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(*) Médico psiquiatra, psicoterapeuta, conferencista, consultor de empresas na área de desenvolvimento humano, diretor do Instituto Hermes de Transformação Humana. Vem há anos trabalhando com empresas privadas e estatais, instituições de ensino, hospitais, treinando pessoal, dando palestras e dirigindo vivências.

(**) A antropóloga Bia Labate prestou uma consultoria para o Sexto Movimento pela Vida para a organização desta mesa redonda, composta por:
Mediadora: Bia Labate – antropóloga – (SP) (bia_labate@yahoo.com.br)
1. Ovídio Octavio Pamplona Lobato – médico neurologista – (PA) (ipadma1@ig.com.br)
2. Edmir Oliveira – Dirigente da Barquinha – (DF) (edmiroliveira@ibest.com.br)
4. Helio Gonçalves – médico e dirigente da UDV – (GO) (demec@udv.org.br)
3. Wilson Gonzaga – médico psiquiatra e dirigente da ABLUSA – Associação Beneficente Luz de Salomão – (SP) (wgonzaga@institutohermes.com.br)
5. Paulo Roberto Souza e Silva – Dirigente do Santo Daime – (RJ) (ceflusmme@aol.com)
6. Rogério Moacir Cunha – dirigente da Escola de Comunhão da Ayahuasca Mística Universal (TO) (rogemcunha@yahoo.com.br)
7. Leopardo Yawabane Huni Kuin – estudante do nishi- pae (ayahuasca) Huni Kuin (Kaxinawá) – (AC/SP) (yawabane@terra.com.br)

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