quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os poderes medicinais da Ayahuasca



Por: Marcelo Rigotti.
Eng. Agrônomo, Dsc. Agronomia.
rigottims@yahoo.com.br

A ayahuasca é uma bebida preparada através da fervura de caules de mariri (B. caapi) com outras plantas, particularmente a chacrona (P. viridis), as folhas contem alcalóides responsáveis pelo efeito psicoativo. A atividade farmacológica depende da interação sinergística entre os alcalóides dessas duas espécies de plantas. O alcalóide psicoativo da planta chacrona, chamado tecnicamente de DMT possui efeito alucinogênico, que quando é ingerido isoladamente, não expressa seu efeito por ser absorvido pela enzima monoamino oxidase (MAO), que metaboliza a DMT e a digere muito antes que possa chegar ao cérebro, transformando a DMT em metabólitos inativos.
Porém quando ingerido em conjunto com a planta mariri que possui o compostoβ-carbolina que é um inibidor da MAO, o seu metabolismo é mais tardio, permitindo que o mesmo chegue ao cérebro. A bebida produz estimulação cardiovascular, aumentos na freqüência cardíaca e pressão arterial, sensações de estimulação visual ou auditiva, introspecção psicológica e forte sentimentos emocionais. A bebida tem gosto amargo e pode provocar vômitos.
Alguns pesquisadores têm sugerido a utilização em aplicações terapêuticas como um complemento ao tratamento para vícios da cocaína, alcoolismo e depressão.
Etnobotânica.
Banisteriopsis caapi (Spruce ex. Griseb.) C.V. Morton.
Outras espécies: Banisteriopsis muricata, Banisteriopsis inebrians, Banisteriopsis rusbyana (Diplopterys cabrerana).
Família: Malpighiaceae.
Nomes comuns: mariri, ayawaska, ayawaska negra, ayawaska amarilla, purgawaska. Usos etnofarmacológicos: Depurativa, emética, laxativa, dores de estomago, anti-reumática, tônica e usada contra lumbago.
Psychotria viridis Ruiz. et Pav.
Outras espécies: Psychotria psychotriaefolia (Seem.) Standl., Psychotria carthagenensis Jacq., Psychotria alba Ruiz et Pav., Psychotria ernestii K. Krause.
Família: Rubiaceae.
Nomes comuns: chacrona, chakruna, chakruna negra.
Usos etnofarmacológicos: Depurativa, dores de estomago, anti-reumática, tônica e usada contra lumbago.

O que é Ayahuasca.

Ayahuasca é uma infusão de plantas psicotrópicas utilizadas em rituais de xamanismo como uma bebida preparada a partir de caules de B. caapi, uma trepadeira encontrada na zona ocidental da bacia amazônica, juntamente com as folhas de P. viridisplanta da família do café. Ayahuasca contem princípios psicoativos usada por mais de 70 grupos indígenas espalhados pelo Brasil, Colômbia, Peru, Venezuela, Bolívia e Equador (Goulart, 2005). Outros grupos como o Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal (UDV) usam a ayahuasca como instrumento para elevação do espírito, esses grupos possuem influencia do Catolicismo (Santos et al., 2007).

Os compostos psicoativos.

P. viridiscontém DMT (N, N-dimetil – triptamina), um potente alucinógeno que é ativo quando tomado parenteralmente, mas não por via oral (Shulgin, 1976). Isto porque o trato gastrintestinal também contém a enzima monoamino oxidase (MAO), que metaboliza a DMT digerida muito antes que ela possa chegar ao cérebro, transformado em metabólitos inativos (Riba et al., 2003). No entanto, quando DMT é ingerida em conjunto com um inibidor da MAO – como é o caso do composto β-carbolina – o seu metabolismo é mais tardio, permitindo que o mesmo chegue ao cérebro (Ott, 1999). No entanto, DMT não é ativa em doses até 1000 mg (Shulgin, 1997). Após administração parenteral de mais de 25 mg, DMT mostra efeitos psicoativos (Shulgin, 1997). A sinergia entre os compostos psicoactivos em B. caapi e em P. viridis é uma notável interação farmacocinética. Inibidores da MAO são uma classe farmacológica de compostos com propriedades antidepressivas, impedindo a desagregação dos neurotransmissores da monoamino no cérebro (Julien, 1998). A DMT é comumente encontrada em tecidos de mamíferos, outros pesquisadores propõem que os níveis de DMT aumentem no cérebro de mamíferos durante o estresse, a permanência da DMT pode atuar como um ansiolítico endógeno (Jacob & Presti, 2005).
Os caules e cascas de B. caapicontém β-carbolinas tais como harmine e harmaline (Callaway, 2005) e 1,2,3,4-tetrahydroharmine. Estes compostos β-carbolinas possuem propriedades sedativas e alucinogênicas e pode também agir como inibidores da monoamina oxidase (IMAO). Porque a MAO decompõe DMT, sua inibição permite que a DMT seja absorvida e fique biodisponível oralmente. A β-carbolina frequentemente causam náuseas e vômitos (Haroz& Greenberg, 2006). As β-carbolinas não são psicoactivas, mas são inibidores da enzima MAO (Riba, 2003). A combinação das plantas conduz a efeitos psicoativos porque a distribuição da substancia DMT não é inibida (Riba et al., 2003).

Os efeitos.

Os efeitos geralmente começam após 30-40min da ingestão, o pico dura cerca de 2 h, e pode chegar a 6h (Riba et al., 2003). A bebida produz moderada estimulação cardiovascular, incluindo aumentos na freqüência cardíaca e pressão arterial diastólica (Riba et al., 2003). Usuários relataram sensações de estimulação visual ou auditiva, sinastesia, introspecção psicológica e forte sentimentos emocionais que vão desde tristeza ocasional ou medo até a exaltação e conforto espiritual (Shanon, 2002). O chá tem um gosto amargo e não pode ser descrito como agradável para beber. A ocorrência da emese, ou vômito, não é incomum durante a experiência, um efeito que é geralmente considerado como uma purificação espiritual ou física.
Estudos recentes tem revelado que a ingestão da ayahuasca diminuiu os sintomas do mal de Parkinson em pacientes com esta doença (Serrano-Duenas et al., 2001). Em outro estudo, Grob et al. (1996), entrevistou 15 praticantes da União do Vegetal, 11 deles eram usuários do álcool de moderados a severos antes de engajar na nova religião, 5 deles relataram comportamento violento associado ao uso do álcool, 4 tinham envolvimento com outras drogas que incluíam cocaína e anfetamina, 8 eram fumantes compulsivos. Todos eles largaram seus vícios após o inicio da ingestão da ayahuasca, sem danos na personalidade ou na cognição.
Prova de dependência Ayahuasca é inexistente, na verdade, alguns têm sugerido a utilização em aplicações terapêuticas como um complemento ao tratamento para vícios (McKenna, 2004). Mabit (1996) propôs o uso medicinal da ayahuasca no tratamento do vicio da cocaína. Labigalini (1998) descreveu o uso da bebida por ex alcoólicos em um contexto religioso.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

AYAHUASCA COMO OPÇÃO ESPIRITUAL‏

por: DR. RÉGIS ALAIN BARBIER

As plantas sagradas, como um remédio, podem nos auxiliar a conscientizar um senso ampliado de identidade, provendo o estímulo necessário para a superação do hábito de restringir a nossa consciência de "eu" ao mundo das abstrações ou ao dos desejos egóico e pueris.



Com certeza, uma poção com a Ayahuasca, (assim como a seiva de outras plantas tradicionais e de uso ritualista), é capaz de proporcionar o auxílio que precisamos para redirecionar o nosso destino; orientar a humanidade em direção à realização do homo-sapiens verdadeiro: um ser ponderado, compreensivo, compassivo, tolerante, flexível e integrado.



O caminho dos vegetalistas, ou ayahuasqueiros, por ser mais intenso que muitas outras disciplinas, pode parecer de alguma maneira mais fácil por proporcionar um contato mais precoce e mais intenso com o numinoso. Tal contato pode inspirar compromisso e abrir as portas para mais força e criatividade, mais graça, para superar os conteúdos incômodos.



Certamente, com um investimento enorme de tempo e esforço, estas mesmas expe-riências podem ser obtidas pelos que dominam a ciência da meditação. Para investigadores cuja prática espiritual deve ser integrada com a necessidade detrabalhar e prover ao seu sustento, o uso adequado dessa tecnologia milenar pode tornar o pro-cesso da realização exeqüível. Para os que, mergulhados nessa nossa “sociedade de competitividade e consumo”, encontram o tempo para meditar essas experiências poderão vir a representar um salto qualitativo nas suas práticas.



Porém, a Ayahuasca não é um caminho para todos; substâncias psicoativas não são pontes, ou atalhos, apenas vias mais rápidas. A escolha deve ser baseada no conhecimento amplo dos fatores envolvidos. Esclarecer-se requer a resolução de materiais e conflitos inconscientes; aqueles que aspiram a essa realização precisam avaliar a sua disposição e coragem, decidir o compasso e a intensidade com a qual desejam se encontrar com essa psicodinâmica, essa “purgação” ou purificação na linguagem dos adeptos da Ayahuasca.



A Ayahuasca revela que o conhecimento que temos do mundo, da existência, é um estado ou processo psicossomático. A experiência mística realiza a descrição cientifica da relação ecológica de todos os seres, do campo quântico e unificado; essa experiência implica desapego e transformação, isto é a drenagem do conceito de “ego”.



Se a nossa intenção é sincera, se temos coragem e generosidade o suficiente, então vale a pena estudar todas as técnicas úteis para a realização espiritual - a Ayahuasca, utilizada com motivação certa, habilidade e integridade, pode contribuir muito para o alívio do sofrimento, dando acesso à sabedoria e visão necessária para a união mística.



AYAHUASCA COMO INSTRUMENTO DE AUTO-OBSERVAÇÃO:



A percepção, habitualmente embotada, permite apenas aprender e acessar uma fração distorcida de realidade; uma realidade revestida de projeções pessoais e pressuposições. A propriedade central dos “enteógenos” ou “psico-integradores” é com certeza levantar o véu, amplificando a experiência.



A Ayahuasca amplifica a capacidade psicossomática de responder a gradações mais sutis de estímulos além de muitas vezes integrar as diversas faculdades sensoriais em processos sinestésicos. Esse efeito de aumentar a capacidade de experienciar, de avaliar e apreciar por si mesmo, é central para a compreensão do seu significado.



Esta amplificação, como uma lupa, permite uma (re)visitação intensiva e absorta dos conteúdos mentais - recordações, idéias, fantasias, pensamentos, emoções, medos, esperanças, sensações em gerais. Na dependência da ética e valores morais atuais do indivíduo, além de influir na intensidade e no foco das percepções, a experiência pode motivar a re-significação dos conteúdos sendo observados. Valores morais e atitudes são revistas.



Aqui temos uma tecnologia que alterando a composição bioquímica do instrumento e dos meios de processamento da informação, permite a inativação temporária dos filtros culturais e psicodinâmicos que nos bastidores da mente agem determinando, formatando e hierarquizando, nossas experiências quotidianas.



Pode se de fato aprender muito, crescer e liberar energia psíquica revendo, transformando, eliminando, aceitando e se reconciliando com conteúdos incômodos.



COMO CAMINHO INICIÁTICO: SINCERIDADE E CORAGEM:



A função de uma substância com a Ayahuasca é muitas vezes mal entendida. Muitos pensam que pelo fato de terem tido experiências maravilhosas, já obtiveram as respostas e foram de alguma maneira transformados. Em alguns aspectos foram, mas muitos descobrem a realidade de que existem muitas camadas de condicionamento e ignorância a separar a mente superficial do núcleo do ser.



A Ayahuasca e outras plantas instrutoras podem levar à transposição dessas barreiras permitindo o acesso à nossa essência, necessitando, contudo persistência e comprometimento no sentido de mudar e remover os velhos hábitos que tendem a reaparecer.



Muitos imaginam que a repetição da experiência irá manter um estado de lucidez e visão, de fato pode, mas freqüentemente, a mudança requer trabalho duro e esforço dedicado; algumas vezes a experiência transforma, outras vezes mostra o possível, aponta o caminho, a responsabilidade de implementar as mudanças nos pertence.



Para o investigador espiritual sério, assim como para os que buscam conhecimento verdadeiro, a característica mais importante é a honestidade. Isto significa a coragem para olhar para o que se apresenta no processo, pela habilidade de admitir as suas falhas quando se tornam aparentes e pela determinação de mudar os seus comportamentos em função do que se revela.



O contéudo e natureza das experiências que essa substância induz não são, portanto, produtos artificiais resultantes da sua interação farmacológica com o cérebro, mas expressões autênticas da psique que revela seu funcionamento e potenciais em níveis inacessíveis no estado ordinário de consciência.



Para aquele cuja intenção real é instalar uma transformação psico-espiritual, a Ayahuasca pode funcionar como catalisador natural a revelar e liberar intuições e conhecimentos oriundos das facetas mais elevadas do ser, permitindo o acesso a uma sabedoria fundamental relativa ao universo e à nossa posição como indivíduo.



O grande valor da Ayahuasca, trazidos à nossa atenção pelas sociedades indígenas, é que ela dissolve os limites da mente inconsciente; ela dá acessos aos conteúdos reprimidos e esquecidos. Ela possibilita o reconhecimento das configurações universais da psique, os arquétipos de humanidade, junto com um leque mais abrangente de conhecimentos e maneiras de conscientizar, até eventualmente a vivência dos diversos aspectos da união mística.



COMO CAMINHO INICIÁTICO: TOLERÂNCIA:



Uma substância como a Ayahuasca oferece opções terapêuticas já que tende a dissolver a fragmentação e a compartimentagem interna, a revelar mecanismos de defesas diversos como “projeção”, “negação” ou “deslocamento”, possibilitando o esclarecimento dos sectarismos e pontos de vistos intransigentes.



Na medida em que o indivíduo consegue ver as coisas de uma maneira não distorcida, vendo claramente não apenas o seu passado mais também a presunção e cegueira da sua própria cultura e grupos de referencias, ele necessita, além de tolerar a decepção e o sofrimento, superar sentimentos de desamparo.



Nem sempre é fácil ter de ver e aceitar que não somos assim tão vítimas, mas sim responsáveis pelas nossas vidas; aceitar ser capaz, reconhecer o seu potencial e a responsabilidade que isso requer implica coragem e determinação. Podemos até recusar crer que fazemos jus a muita beleza e alegria, bem estar profundo, sem nada ter de pagar além de ser o que já se é; apenas sendo o que já somos. O gerenciamento emocional produtivo dessa reavaliação, a reorganização psíquica, implica um grau suficiente de equilíbrio e bom senso para que se tomam atitudes judiciosas sem precipitações.



TRIANGULAÇÃO - AYAHUASCA COMO UM FENÔMENO TRÍPLICE:



A PESSOA, O AMBIENTE E O CHÁ.



Sobre a influência da Ayahuasca, a intensidade dos estímulos - tanto por amplificação e enriquecimento de detalhes e pontos de vistas perceptuais quanto pelo maior influxos de dados perceptivos - aumenta consideravelmente as possibilidades de respostas à experiência. Devido a essa magnificação da percepção, uma atenção especial tem se dado à qualidade dos estímulos provenientes tanto do indivíduo quanto do meio onde o chá esta sendo utilizado.



A hipótese denominada em inglês de “set and setting” foi inicialmente formulada por Timothy Leary nos anos 60 no âmbito das pesquisas iniciais com agentes psicoativos e foi rapidamente aceita pelos demais pesquisadores da área. A teoria geral determina que o conteúdo de uma experiência com substância psicoativa é uma resultante da interação de três fatores básicos.



Os fatores essenciais são: o “set”, que traduzo como sendo o “fator pessoal”, isto é aquele que o individuo traz consigo, os seus conteúdos (intenção, atitudes, personalidade, humor, etc.); o “setting” ou “fator ambiental” corresponde a todos os elementos externos ativos e capazes de influir a experiência (fatores interpessoais, social, ambiental, o âmbito). A substancia em si, o “Chá” age como um gatilho, ou catalisador, a conectar e por em interação os fatores citados numa dinâmica especifica, criativa e intensa.



É evidentemente impossível definir qual dos fatores é o mais importante tanto quanto é impossível dizer qual o lado mais essencial de um triângulo isóscele. Contudo “o âmbito” é a vertente da experiência que pode ser programada, estudada, ensaiada e cuidadosamente preparada para um melhor proveito.



TRIANGULAÇÃO - O FATOR PESSOAL:



Como a Ayahuasca revela o nosso lado oculto, abrindo as portas do inconsciente numa linguagem psicológica, um enorme leque de opções e qualidade de experiência se apresenta. Na realidade essa poção psicoativa revela e liberta o que está dentro da pessoa, tornando a mente manifesta (ou seja, efeito “psicodélico” como “manifestação da mente”). A mente se torna sujeita a observação e, por isso mesmo, a transformação.



A fluidez e a qualidade do deslocamento do ayahuasqueiro nesse labirinto psíquico depende antes do tudo do fator pessoal, do “conteúdo” que inclui os elementos do inconsciente pessoal, o registro da experiência de vida, assim como os mecanismos condicionantes em operação – recatos e defesas – a determinar a liberdade de opções, a qualidade, riqueza e legitimidade das interpretações, enfim, os principais desafios do indivíduo.



Outro aspecto importante do conteúdo consiste nos valores e critérios pessoais; atitudes, aspirações, expectação, intenção e ética. Estes elementos irão influenciar a atração da atenção e determinarão o modo da pessoa lidar com o material psíquico revelado.



TRIANGULAÇÃO - O FATOR AMBIENTAL:



O fator ambiental se refere aos fatores externos ao indivíduo e capazes de influenciar a experiência: o lugar onde o chá é servido; a atmosfera do ponto de vista cultural, espiritual e emocional; como o indivíduo está sendo atendido; a quantidade de pessoas envolvidas; o tipo de liderança aplicada na experiência são alguns dos fatores a considerar.



Normalmente o indivíduo se torna bastante impressionável quando sofre os efeitos de substâncias como a Ayahuasca, estado decorrente da magnificação perceptual já mencionada. Esse efeito acoplado como o aumento da perspicácia, capacidade metafórica e habilidade em gerar psico-associações criativas, alimenta o lado noético e o imaginário da experiência.



É obvio que essa “impressionabilidade” não significa que o ayahuasqueiro é mais facilmente suscetível de influência do que o homem comum ou do que os fiéis das religiões de massas, por exemplo. O grau de credulidade, ingenuidade, ou então de cepticismo (ver nota) de um indivíduo reflete opções cognitivas, filosóficas, assim como traços de personalidade profundos e estáveis, até mesmo inerentes, que não serão transbordados pela “força e influência” do chá. Ao contrário, são justamente esses conteúdos profundos do indivíduo – inclusive tendências básicas como credulidade ou cepticismo - que determinam a maneira de significar a experiência.



O tipo e da qualidade do sistema de crenças, da visão, pertinente ao âmbito social no qual a experiência irá ocorrer assim como o tipo de liderança e dinâmica dos trabalhos são fatores essenciais, capazes de influenciar em grande parte a harmonia e tranqüilidade da experiência; possuir uma boa descrição do âmbito onde se irá comungar a poção é um fator importante. Uma liderança não muito interventiva e tranqüila favorece o acesso e estudo dos conteúdos pessoais, o exame e integração da sua própria trajetória, o encontro de caminhos e conceitos próprios.



Um facilitador precisa ser paciente, empático, familiarizado com os processos da experiência; ele pode ser muito efetivo sabendo refletir os pontos essenciais, fazer perguntas, observações aparentemente casuais. Cantos, músicas, atitudes e até mesmo orientações diretas bem dosadas, podem ser importante para facilitar uma experiência suave e rica.



O ayahuasqueiro descobrirá que dividindo possíveis dificuldades com companheiros receptivos e compreensivos poderá gerar claridade e conforto. Finalmente, e na maioria das vezes, o melhor guia é a nossa própria consciência e esse processo interno não deve ser interferido a não ser quando solicitado.



Rituais inspiradores, universais e holísticos, ambientes naturais, atividades espontâneas e criativas, permitem a focalização da atenção para regiões psíquicas interessantes.



Os próprios conteúdos, junto com a configuração de ambiente, a qualidade do chá, a própria intenção e a do grupo, configuram um processo singular, uma “gestalt”, um “ser maior”, o próprio eu transpessoal da experiência. Reconhecer e ter certeza de estar em sintonia e harmonia com esse “ser maior” gerado pelo evento é a chave de uma experiência de grupo bem sucedida.



(Nota) Cepticismo: atitude ou doutrina segundo a qual o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, quer nos domínios das verdades de ordem geral, quer no de algum determinado domínio do conhecimento.



TRIANGULAÇÃO - O CHÁ:



Investigações demonstram a variabilidade do chá na sua composição química. Fatores dependentes, das plantas e lugar de origem, da hora da colheita, do preparo (quantidade relativa das duas plantas, grau do apuro e tipo de água utilizada - fatores com pH, teor mineral da água) todos influenciam a qualidade do chá e, portanto os seus efeitos. A quantidade utilizada durante uma cerimônia é também um fator decisivo.



Quantidades habituais ou moderadas permitem uma observação melhor dos seus próprios conteúdos, um estudo detalhado da sua própria psicodinâmica. Quantidades maiores são necessárias para se “viajar no astral” na linguagem dos usuários de algumas seitas. A utilização de grandes quantidades de chá, acima de 300 mililitros, numa única tomada é mais bem aproveitada em ambiente especifico, mais reservados com uma supervisão adequada e favorece o tipo de vivência descritas na fenomenologia como “experiências místicas”.



Com uma prática adequada e um considerável trabalho sobre si mesmo é possível se chegar aos mesmos resultados com dosagens menores.



INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA - REAÇÕES:

Como as defesas do ego são desafiadas, sentimentos reprimidos e recordações afloram na consciência, podendo criar algum nível de ansiedade - uma reação semelhante ao enfrentado em situações inusitadas ou de desfecho incerto como praticar esportes radicais, participar de competições esportivas ou ainda se submeter a alguma prova. Uma experiência desse tipo é geralmente muito proveitosa por ensinar mais.



Reações adversas mais sérias ainda não foram descritas com o uso da Ayahuasca, em parte porque o chá tem sido utilizado com critério e responsabilidade, em doses adequadas, e que a Ayahuasca não tem sido promovido como sendo remédio e solução para curar as crises emocionais de pessoas seriamente transtornadas.



Triagens para eliminar os prováveis candidatos a reações adversas, como as personalidades esquizóides e pre-psicóticas, os neuróticos com instabilidade de identidade e níveis altos de ansiedades, os usuários de drogas e medicamentos psico-ativos possibilitam a realização de Cerimônias tranqüilas, seguras, criativas e de inestimável valor espirituais.



INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA - EFEITOS PRÁTICOS:



Experiências como as proporcionadas pela Ayahuasca são por natureza transcendental, transpessoais, porque alargam a experiência e visão da realidade, diminuem o império do ego sobre a personalidade, facilitam uma mudança de valores.



Torna-se evidente que a utilização de uma substância como a Ayahuasca é mais útil dentro de um contexto e de uma disciplina tendo como objetivo o crescimento e a evo-lução espiritual, um programa chamando atenção para os valores éticos e morais fundamentais. Uma disciplina adequada fornece um corpo de ética capaz de apoiar as mudanças requeridas, clarificando os objetivos, mantém a mente focada e aberta para o aprofundamento crescente da experiência.



É o indivíduo, a sua intenção que determinam se a experiência será mística e religiosa, evolutiva ou não. Bastante preparo é necessário para se chegar a uma experiência mística, mesmo usando Ayahuasca e um trabalho de integração efetivo é necessário para que a experiência seja de fato transformadora. Se o estado de consciência ampliado induzido pela experiência conduz ou não a mudanças positivas e duradouras, depende da intenção e dedicação do usuário.



Uma visão, mesmo rápida, de uma realidade maior pode mudar a vida de uma pessoa se ela resolve integrar essa visão à sua realidade.



Receber uma luz não é igual a aplicar essa luz no dia a dia; não há conexão inerente entre uma experiência mística de unidade e a expressão ou manifestação daquela unidade na vida cotidiana. Este ponto é talvez óbvio, contudo freqüentemente esquecido por aqueles que debatem se, em princípio, um agente psicoativo pode ou não ter valor no âmbito da busca espiritual. Qualquer que seja a fonte ou a origem da iluminação, as revelações só poderão ter efeitos práticos com a permissão e dedicação do individuo.



Autor: Dr. Régis Alain Barbier.

fonte:

http://www.panhuasca.org.br/



* nota:



Nossa gratidão ao nosso amigo Dr. Régis pelo excelente trabalho que vem realizando e pelos esclarecimentos que com grande maestria nos brinda no texto acima, que reflete com grande clareza nossa própria visão da Bendita Abuelita Ayahuasca e de suas propriedades maravilhosas em abrir os mistérios do Divino dentro de nosso coração.



Que Deus lhe abençoe querido Régis. Ahô!



Luis Pereira





http://www.universomistico.org/s/opcao-espiritual.html